quarta-feira, 16 de março de 2011

TERREMOTO NO JAPÃO

Matriz nuclear no Brasil não se abala com acidentes no Japão

Autoridades do governo saíram em defesa das usinas nucleares, destacando a segurança das unidades brasileiras, o potencial que o país disponibiliza e apresentando os acontecimentos em Fukushima como exceção

Por Carlos Giffoni
 Divulgação
Usina de Angra 2, na Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis. A unidade de Angra 3 deve ficar pronta até 2015
Os acidentes envolvendo usinas nucleares no Japão após o terremoto que atingiu o país retomam uma discussão travada no Brasil desde a década de 1950, quando o projeto da usina de Angra 1 começou a ser discutido.
Para o presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Edson Kuramoto, ainda é cedo para o país se posicionar: “É um erro tomar qualquer atitude no calor do acidente. Devemos esperar que a situação no Japão seja controlada para analisar o que pode ser tomado como lição”.
Durante a semana, autoridades do governo indicaram que o programa nuclear brasileiro não será afetado.
O primeiro a se manifestar foi José Sarney, presidente do Senado. Ele declarou que o país deve reavaliar os investimentos destinados à energia nuclear. Sarney disse que “a natureza tem suas próprias vontades”, e por isso o Brasil deve levar em consideração que os riscos sempre existam, ainda que o país não tenha apresentado nenhum sinal de tremor semelhante como o registrado no Japão.
Na contramão das declarações de Sarney, o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, e o ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, afirmaram que o país manterá o projeto de construção de usinas nucleares (quatro, até 2030), seguindo criteriosamente todas as atualizações nas medidas de segurança disponíveis. “Angra 1 e Angra 2 são mais seguras do que a usina de Fukushima, no Japão”, disse Mercadante, que foi escalado pelo governo para dar explicações à população e tentar conter os ânimos contra a energia nuclear. “Não temos nenhuma necessidade de revisar nada, a não ser aprender com o que aconteceu lá”, disse Lobão.
Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, é a casa da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto – da qual as usinas de Angra 1, Angra 2 e Angra 3 (em construção, após ficar com as obras paradas por mais de 20 anos) fazem parte. Kuramoto, da Aben, explica que essas instalações estão preparadas para passar por um terremoto de até 6,5 graus na escala Richter e serem atingidas por ondas de sete metros. “Ainda assim, as condições geológicas da região mostram que é quase impossível que algo semelhante aconteça na região de Angra”.   
ABC TV
Explosão na usina nuclear de Fukushima, no Japão (Reprodução ABC TV / EFE)
O Japão, que é o terceiro país mais rico do mundo, apresenta tecnologia de ponta para se proteger de abalos sísmicos, comuns à região que fica no limite de placas tectônicas. Apesar de toda a prevenção, parte do país rachou. Para o presidente da Aben, tal situação é imprevisível: “O Japão sofreu com dois fenômenos extremamente fortes e seguidos [o terremoto e o tsunami]. O Brasil não está sujeito a isso, o que qualifica as medidas de segurança como adequadas”. Segundo Kuramoto, a indústria nuclear no mundo trabalha em cooperação: “Toda descoberta que possibilite maior segurança é repassada a usinas no mundo inteiro”. Logo, o Brasil – e o brasileiro – “podem estar tranquilos quanto às medidas de segurança adotadas no país. A nossa matriz nuclear não se abala com os acontecimentos no Japão”.
A potência total da Central de Angra ultrapassa os dois mil megawatts (a produção é de 14 milhões MWh), porém este número representa cerca de 3% da energia elétrica consumida no país. Esse potencial deve aumentar até 2015, quando Angra 3 deve começar a funcionar. Um ponto favorável a investimentos como esse é que o país apresenta, com 30% do território prospectado, a sexta maior reserva de urânio do mundo. Estima-se que o potencial total brasileiro o coloque na segunda posição, com 900 mil toneladas de urânio.
A necessidade de construir usinas atômicas num país com tamanho potencial hidrelétrico é muito questionada, já que a matriz nuclear é mais cara e constantemente levanta discussões sobre segurança. Por outro lado, os danos ao meio ambiente servem como argumento favorável às usinas nucleares, que transformam menos o espaço onde estão instaladas e não emitem poluentes. Para Kuramoto, nos próximos 20 anos a energia nuclear assumirá grande importância no Brasil. “Segundo o Plano Nacional de Energia 2030, até essa data o país deve esgotar o seu potencial hidráulico e a solução será recorrer a alternativas que gerem energia em grande escala. Entre as disponíveis, como o óleo combustível, gás e carvão, as usinas nucleares são as mais limpas.”
Uma justificativa para que, no ano passado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovasse um investimento de R$ 6,1 bilhões para a construção de Angra 3 – o que representa cerca de 60% do total de investimentos necessário, segundo a Eletronuclear. Duas outras usinas no Sudeste, sem previsão de sede, e duas no Nordeste devem fazer parte do parque nuclear do Brasil até 2030. Alagoas, Bahia, Pernambuco e Sergipe estão no páreo.